terça-feira, janeiro 24, 2006

A cor do teu céu VII (Vermelho)

Nasce vermelho o dia, as primeiras sombras aparecem amarrotadas, difusa, vagas, raiadas de sangue como os teus olhos, cortadas ao bisturi, com uma precisão cirúrgica, como se Vénus de Nilo se tratassem. O céu ameaça explodir, arde numa fogueira de horas, queimando tempo como comburente e almas como combustível. O fogo desce a terra, não como uma bênção divina mas como um mandado de Nero, em coluna ligando céu e terra. Todos fogem, todos têm medo, todos se escondem. Ficas só, sozinho a enfrentar o fogo dos céus, com as labaredas que saem dos teus olhos, em breve elas vão te consumir, as pernas hão-de tremer, irás cair. Exausto, mortificado, por ti o fogo passa escorre-te pelos dedos, não te consome, não te desgasta, não te dá energia, não te mata, apenas passa como a sobra de uma nuvem, e sussurra-te ao ouvido: -“Ousas-te tentar”.

0 comentários: